25 de jul de 2012

[Nelson Rodrigues] A vida como ela é...

Contei há alguns dias aqui que minha relação com Nelson Rodrigues se fortaleceu muito durante meu Trabalho de Conclusão de Curso da Faculdade de Jornalismo da PUC-SP.

Nelson Rodrigues virou um vício: lia durante o dia, na hora do almoço, antes de dormir, madrugada a dentro... Quando você começa a ler, é impossível parar.

Minha coleção de livros de Nelson Rodrigues

Dentre todos - e olha que são muitos! - os livros do autor, nenhum outro roubou meu coração como A vida como ela é..., os pequenos contos do dia a dia do subúrbio do Rio de Janeiro, que esfrega a realidade das mentiras e hipocrisia da sociedade na nossa cara.

É uma obra atemporal e ainda presente em nossas vidas: amor, sexo, casamento, amizades, traição, suspeitas, desconfiança, certezas, morte, assassinato, dor, paixão...: tudo junto e misturado.

Recomendo a leitura e, também, para quem ficar curioso, vale dar uma xeretada no youtube e assistir os episódios selecionados, dirigidos por Daniel Filho, e que viraram série no Fantástico. O DVD está à venda e é entretenimento cultural garantido, mas pesado.


Minha recomendação é que para ler ou assistir A vida como ela é... tirem as crianças da sala!



Sobre A vida como ela é...






Durante dez anos, de 1951 a 1961, Nel­son Rodrigues escreveu sua coluna A vida como ela é... para o jornal Última Hora, de Samuel Wainer. Seis dias por sema­na, chovesse ou fizesse sol. A chuva podia ser como a do quinto ato do Rigoletto e o sol, daqueles de derreter catedrais, se­gundo ele. 

Todo dia, com uma paciência chinesa e uma imaginação demoníaca, Nelson escrevia uma história diferente. E quase sempre sobre o mesmo assunto: adultério. Desse tema tão simples e tão eterno, ele extraiu quase 2 mil histórias. Os ficcionistas que fingem se levar a sé­rio precisam de toda uma aura de misté­rio para criar. Nelson dispensava esse mis­tério. Chegava cedinho à redação, acendia um cigarro e, na frente dos colegas, entre miríades de cafezinhos, escrevia A vida como ela é... As histórias saíam de casos que lhe contavam, da sua própria obser­vação dos subúrbios cariocas ou das cabe­ludas paixões de que ele ouvira falar em criança. Mas principalmente da sua me­ditação sobre o casamento, o amor e o desejo. 

O cenário dos contos de A vida como ela é... é o Rio de Janeiro dos anos 50. Uma cidade em que casanovas de plantão e mulheres fabulosas flertavam nos ônibus e bondes; em que poucos tinham carro, mas esse era um Buick ou um Cadillac; em que os vizinhos vigiavam-se uns aos ou­tros; e em que maridos e mulheres viviam sob o mesmo teto com as primas e os cunhados, numa latente volúpia incestuo­sa. 

Uma cidade em que, como não havia motéis, os encontros amorosos se davam em apartamentos emprestados por amigos — donde o pecado, de tão complicado, tor­nava-se uma obsessão. E uma época em que a vida sexual, para se realizar, exigia o vestido de noiva, a noite de núpcias, a lua-de-mel. E em que o casal típico — e, de certa forma, perfeito — compunha-se do marido, da mulher e do amante.

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