9 de jan de 2012

[Guest post] Autor e Gerúndio: parceria ou conflito?

Após longas conversas a respeito do tema abordado, resolvi convidar a queridíssima JANDA MONTENEGRO a escrever aqui, e dividir essa aflição com vcs!

Vale para deixar claro que, na minha humilde opinião, todo excesso deve ficar de fora (da vida)! 
E vocês, o que acham??

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Autor e Gerúndio: parceria ou conflito?

             Escrevi um conto para uma coletânea e, como tenho lido muitos livros da editora que a publicará, banquei a malandra e escrevi o texto “nos moldes” dos livros produzidos por ela. Qual foi minha surpresa quando a Editora devolveu-me o texto e alegando que, entre outras coisas, eu estava escrevendo com muito gerúndio!
            =O
            Não pude acreditar! Eu havia escrito conscientemente desta maneira por achar que era isso que ela e o público queriam!
            Como sou inquieta e não desisto nunca, peguei livros de três editoras diferentes, voltados para o mesmo público-alvo, e encontrei o mesmo ponto pertinente: romances traduzidos nos quais era possível detectar mais de cinco verbos no gerúndio por parágrafo!
            Então, o que está acontecendo? Quero dizer, traduzir e publicar livros assim está tudo bem, mas o autor nacional não deve escrever assim? Por outro lado, se o público alvo está lendo livros assim e, aos poucos, está se acostumando com essa característica na narrativa, como o autor nacional – que se recomenda não escrever desta forma – irá cativar este público, se não poderá oferecer a ele as mesmas características?
            Vejam este exemplo, criado por mim:
           
            Sabendo que os perseguidores vinham atrás dela, Fulana arremessou o casaco para a direita, correndo na direção oposta, imaginando que desviaria a atenção deles. Atravessando a floresta escura, percebeu, adiante, a entrada de uma gruta e nela se escondeu, torcendo para estar a salvo ali.

            Percebem o que quero dizer? 
            A partir do momento em que o tradutor/copidesque/revisor é orientado a fazer seu trabalho de maneira estritamente próxima do original, sem adaptar o texto, o uso excessivo de gerúndio se torna um erro ou apenas tendência de mercado? E, se for este último caso, então por que impedir o autor nacional de escrever nos mesmos moldes?
            E quanto a nós, leitores, blogueiros e críticos? Cabe a nós dizer às editoras que queremos os livros traduzidos sim, mas queremos que o texto seja adaptado para as regras da nossa língua, e não que a nossa língua de adapte ao texto da maneira mais conveniente. Pode parecer exagero, mas este é o tipo de atitude que, em longo prazo, poderá causar sérios danos à nossa língua! Imagine a garotada atual, comedora de livros, daqui a dez anos, escrevendo igual aos livros que leem hoje...
            Vejam bem: este não é um post reclamando do trabalho dos revisores e cia, até porque eu mesma sou revisora e sei que em geral o prazo é apertado e o pagamento não é lá essas coisas. O que eu pretendi fazer foi uma análise sob diversos primas: do escritor, do leitor, da editora – esta última, claro, preferirá sempre receber um texto bem escrito, independentemente da língua original.
O gerúndio é um verbo que faz parte de nossa gramática e deve (e pode!) ser usado. Porém, como qualquer outro, seu uso em excesso torna a leitura cansativa e, por vezes, falsa – afinal, nós, leitores, sabemos que em português nós não falamos daquela maneira.
            Fica a dica.


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Janda Montenegro
author / autora

 
 

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