16 de nov de 2015

Juan Pablo Escobar: 'Esta é uma história que pode ser digna de ser contada, mas nunca digna de ser repetida.'

Um pouco antes de os teaser da série Narcos começarem a pipocar nas redes sociais; e os debates sobre o sotaque mais ou menos de Wagner Moura se tornarem trend topics mundiais; a biografia de Pablo Escobar cruzou o meu caminho. Apareceu aqui em casa, junto aos diversos livros que ganhamos deste mundo editorial que nos cerca. Sem a menor pretensão, comecei a ler. E não parei mais, até acabar. 

Eu já conhecia a história de Pablo Escobar, o maior bandido da América Latina, mas nunca tinha me interessado em entendê-la. Eis que, pelo olhar de seu filho, Juan Pablo, viajei pela sua vida, maldade e tragédia. 

Juan Pablo Escobar e seu livro 'Pablo Escobar - Meu Pai'
Pablo Escobar - Meu Pai, publicado pela Editora Planeta do Brasil, é uma história real que quase parece ficção. O livro narra todos os meios mais absurdos e inimagináveis por onde Pablo e os outros cartéis da época traficavam drogas, principalmente para os Estados Unidos.

Juan Pablo deixa claro, não por opiniões, mas por fatos reais e comprovados, que todo mundo - todo mundo mesmo! - tem o seu preço. E quando se tratava de Pablo Emilio Escobar Gaviria... Bom, aí ninguém custava barato. 

Governos corruptos, policiais corrompidos, familiares gananciosos, amigos traidores, capangas miseráveis... todo mundo também teve os seus motivos, que pareciam justificar os meios. 
A guerra de Pablo contra os Estados Unidos e contra o governo é quase utópica e quase deu certo. 

Mas como toda boa narrativa, os 'quase' têm começo, meio e fim. E o de Pablo, como todos sabem, não podia ser outro senão a morte. Surpresa mesmo, para mim, foi ler a versão de seu filho sobre essa morte. Mas nada de spoliers. 

Ler Meu Pai me trouxe a realidade sofrida de quem sai do nada e encontra no mundo ilícito a oportunidade de ter o que nunca conseguiu comprar antes. Se por um lado Pablo e sua família saíram da miséria e chegaram a um montante de dinheiro jamais calculado em seu valor real; por outro, todos sofreram - cada qual a sua maneira - o peso de viverem do dinheiro sujo de cocaína e... sangue. 

Mas ninguém sofreu mais do que a esposa de Pablo e seus dois filhos, que tiveram que pagar - literalmente - por suas vidas, fugir escondidos, renegar a pátria, a família e os poucos amigos que ainda restavam. 

Juan Pablo, sua irmã Manuela e sua mãe Maria Victoria, não só tiveram que negociar o exílio (nenhum país queria receber do bandido recém-morto), como tiveram que mudar de nome e reconstruir suas vidas do zero. Até hoje, quase não têm amigos e ainda vivem com medo. Quando descobertos, foram vítimas de humilhação pública, violência e abusos. A família de Pablo Escobar carrega, até hoje, o fardo de amarem um homem odiado pelo mundo. 

E, depois de ler este livro, é impossível não sentir compaixão por eles e aproveitar para uma autorreflexão. 

Lançamento de 'Meu Pai',
na Cultura da Av. Paulista.
Na quarta-feira, 04/11/15, Juan Pablo Escobar esteve na Livraria Cultura do Conjunto Nacional, na Avenida Paulista, em São Paulo, para uma sessão de autógrafos. Muito embora o livro tenha se mantido algumas semanas nas listas de mais vendidos na época de seu lançamento, o evento estava quase vazio. Era um dia chuvoso e não muito favorável para um evento de lançamento, mas ainda assim, foi triste de ver quase ninguém por lá. De alguma maneira, acredito que tenha muito a ver com o que relatei no parágrafo acima. 

Acho que as pessoas ainda não entendem que um filho pode amar o seu pai, mesmo sem aprovar tudo o que ele fez. E, principalmente, sem ser o reflexo dele. No fim, a vida não é tão simples como parece. 

E, para mim, essa é a grande graça de ler biografias: elas são capazes de mudar a nossa visão de mundo; de nos transformar.  Certamente, foi isso que Meu Pai fez comigo: me transformou. 

Então, imaginem a minha alegria em aproveitar que o lançamento não estava cheio e conseguir, não só garantir o meu autógrafo, mas também, bater um papo Juan Pablo Escobar, que hoje não esconde mais sua identidade, assume sua história e mostra que é muito mais do que simplesmente filho de Pablo Escobar. 

Confira, logo abaixo, a entrevista. 


Eu e Juan Pablo Escobar, que é muito mais do que filho de seu pai.

No Mundo Editorial - O que motivou você a escrever este livro?
Juan Pablo Escobar - Foram três motivos principais. O primeiro, foi dar direito às vítimas do meu pai para contar a verdade sobre os atos dele. Não para justificá-los, mas para que todos pudessem ter acesso às informações verdadeiras do que ocorreu, que são muito diversas às do que contam as versões oficiais. Quando as vítimas têm acesso às informações verdadeiras, é uma forma de reparar os danos que sofreram. Isso não vai limpar as responsabilidades de meu pai, mas ajuda a que entendam o que aconteceu.
Em segundo lugar, escrevi para contar ao meu filho a verdadeira história de seu avô, para que ninguém por fora possa dizer-lhe o que não aconteceu.
E, por fim, para deixar uma mensagem aos jovens, para  que eles entendam que esta é uma história que pode ser digna de ser contada, mas nunca digna de ser repetida.


NOME -. O livro traz uma visão da história de Pablo Escobar sob os seus olhos; olhos do filho dele. Mas a série do Netflix, Narcos, também baseada na história de seu pai, traz uma visão completamente diferente da apresentada no livro. Houve algum tipo de cooperação da sua parte para elaboração do roteiro?

JPE -- Parece que o Netflix sabe melhor sobre a história do Pablo Escobar do que sua própria família. É uma versão cor-de-rosa da verdade. Inclusive, eles esqueceram de incluir o capítulo em que o DEA cobrava impostos de meu pai para cada quilo de cocaína que entrava pelo aeroporto internacional de Miami. Um pequeno detalhe.

NOME - Você considera a série Narcos como uma verdade distorcida?
JPE - É triste porque eu ofereci a possibilidade de contar-lhes toda a história; de dar-lhes acesso irrestrito a documentos, e não houve interesse por parte deles, de forma que é preciso desconfiar muito de uma série como essas.
Além do mais, o pior é  que eles transformam o narcotráfico em algo glamuroso, algo a se imitar e continuar. Essa é a mensagem que, tanto o Netflix quando a Caracol Televisão (El Patron del Mar), estão deixando para os jovens: que eles devem repetir os feitos de meu pai. E isso é muito grave para o futuro da nossa sociedade.

NOME -- Por que você aconselharia os brasileiros a lerem o seu livro?
JPE - No Brasil, assim como em qualquer parte da América, a história de meu pai pode ser facilmente repetida. E os povos que não conhecem a sua história podem cair no erro de repetí-la.

NOME -- Como é ser filho de Pablo Escobar?
JPE -- Ainda não descobri [risos]. 
Mas é sentir a discriminação, a exclusão, o rechaço e a violência em todos os lugares, todos os dias.
Mas, ao mesmo tempo, ser filho dele me fez encontrar espaço para contar a minha história e a enfrentá-la e, assim, pude aprender a falar o que penso, contar o que aprendi; expressar minhas opiniões; e reencontrar o meu lugar na sociedade.


''Para Talita, uma história para NÃO repetir." - J. P. Escobar

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