19 de ago de 2010

Saramago merece muito mais!

Quando José Saramago faleceu e Luiz Schwarcz publicou o belíssimo texto no Saudade não tem remédio, no Blog da Companhia (que recomendei veemente a leitura no post de tal dia) e, para quem leu, sabe que ninguém melhor que ele, Luiz, para falar com tanta propriedade de alguém que, se para nós era um grande gênio da literatura e o Nobel da Língua Portuguesa, para ele, era simplesmente o "José". 
Quem me dera poder ter a humildades de referir-me a Saramago de maneira tão humilde e tão próxima! Ouvir Luiz Schwarcz falar de Saramago, é, de certa forma, sentir-se mais próxima deste cânone literário, que encantou meu coração com Ensaio sobre a cegueira

Talvez por isso tenha saído tão encantada da Bienal do Livro ontem, onde fui por um motivo especial: assistir a Homenagem a José Saramago, no Salão de Ideias, Clarice Lispector, com participação de LUIZ SCHWARCZ (seu editor brasileiro pela Companhia das Letras), JOÃO MARQUES LOPES (autor português de Saramago: Biografia, publicado pela Editora Leya), e MIGUEL GONÇALVES MENDES (cineasta do documentário José e Pilar, que estrei no Brasil em novembro deste ano).

Os três convidados, intermediados por um jornalista e abordados por perguntas da plateia, falaram com muito carinho sobre Saramago. 


João Marques Lopes, Luiz Schwacz, Miguel Gonçalves Mendes e jornalista.

Luiz Schwarcz e Miguel G. Mendes

Como editor, Luiz Schwarcz contou detalhes interessantes, como por exemplo, que interferia muito pouco no texto de Saramago; não só porque o próprio autor escrevia quase perfeitamente, mas também porque não deixava e não gostava de interferências. Era fiel ao seu próprio texto. Além do mais, não era da cultura dele com seu editor português esse tipo de interferência textual e Luiz respeitou isso. Luiz Revelou, também, que foi ele, junto com Pilar, esposa de Saramago, que comprou o primeiro computador ao mestre: até então, ele escrevia seus livros a mão, depois datilografava na máquina de escrever e, por fim, corrigia os erros e datilografava uma terceira e última vez, já se autoeditando e corrigindo. Ele escrevia seus próprios livros três vezes cada. Surpreendedor, não?

Já Miguel Gonçalves Mendes, que vivenciou o dia a dia do casal José e Pilar nos últimos quatro anos, contou como foi difícil fazer com que Saramago aceitasse essa ideia. Foi só depois de mostrar um outro documentário do cineasta sobr eum famosos poeta português, que Saramago se rendeu à ideia, mas ainda assim com receio de "não ser tão interessante". Como se isso fosse possível!! Miguel falou também do incômodo da relação que Portugal (leia-se aqui o Governo Português) tem de Saramago e foi o que motivou a fazer esse documentário, com o objetivo de mostrar o lado pessoal do grande autor, junto ao seu amor eterno, Pilar. O filme mostra o cotidiano, sem depoimentos, deste casal que, segundo o cineasta, "eram a dupla perfeita; formavam uma pessoa só". Ele, sempre genioso, e ela, muito mais calma e forte. 

João Marques Lopes, por sua vez, admitiu não ter tido contato pessoal com Saramago e que, seu gosto pela obra dele - que leu desde pequeno - o fez procurar a Fundação José Saramago a fim de escrever a biografia. Recebeu a autorização e, baseado em entrevistas e pesquisas, escreveu o livro que, na versão brasileira, traz um belíssimo caderno de fotos. João contou que Saramago chegou a ver a versão portuguesa de seu biografia e que elogiou muito o trabalho, salvo apenas uma única correção: Saramago afirma que que uma suposta proposta milionária de Hollywood para filmar Memorial do Convento, nunca existiu. 

Mas, para mim, o que valeu mesmo foram duas coisas: a primeira, foi ver o Salão de Ideias lotado de ouvintes e, principalmente, de um público interessado e cheio de perguntas que não acabavam nunca! A segunda, e mais marcante, foi ouvir as histórias de um homem tão simples, mas que consideramos aqui quase como um Deus (o que chega a ser irônico, em se tratando de alguém com tantas brigas com a igreja e religiões, rs!). 

O Biógrafo, o Editor e o Cineasta


Um pouco sobre Saramago (o ser humano por tráz do Nobel):

- Saramago, mesmo à beira da morte, sentia que ainda tinha muito o que dizer. 
- Ele não gostava de que suas obras ganhassem versão cinematográfica, pois não gostava de ver a cara de seus personagens. Ensio sobre a cegueira foi uma exceção à regra que comoveu muito o autor quando viu o filme pronto (vejam no post Caiu uma lagriminha... (Ainda sobre Saramago) que emocionante!)
- Ele era muito intuitivo.
- O Brasil sempre lhe foi um terrno muito fértil. 
- Sentia muita alegria por ter seu trabalho reconhecido em vida.
- tinha a certeza de que não veria sua decadência como escritor, pois começou a escrever muito tarde e sabia que morreria antes. 
- Não era extremamente popular e nunca fez sucesso em países como França, Inglaterra e Estados Unidos, por exemplo. 
- Não teve uma administração de seua carreria, não tinha noção do quanto de dinheiro ganhava e era fiel aqueles que sempre lhes ajudava. 
- Era muito simples e não vivia do luxo. 
- Sempre que vinha ao Brasil, morava na casa de seu editor, Luiz. 
- Quando tinha a certeza de que Viagem do elefante seria seu último livro, decidiu (numa viagem ao Rio de Janeiro) que escrevaria Caim. E escreveu. 
- Quando tinha a certeza de que escreveria outro livro depois de Caim, faleceu e não temrinou.
- O futuro de sua obra é incerto, mas não deixará de ser o que nos países em que já se consagrou, como o Brasil, por exemplo.

Mas de tudo que ouvi ali, de todas as histórias, piadas, contos e causos, teve algo que me marcou. Alguém na plateia, como última pergunta, pediu que cada um dos convidados contasse qual a lição que Saramago havia lhes deixado. E, como não poderia deixar de ser, Luiz deu uma resposta que não esquecerei jamais; realmente me comoveu: 

"Apesar do jeito carrancudo de Saramago, ele não conseguia evitar o sorrisos. E às vezes - bem poucas - até gargalhava. Ele tinha a noção de que tinha uma missão, mas que no fundo, não conseguiria: mudar o mundo. José viveu contraditoriamente a vontade de mudar o mundo". 


E e eu fui para casa pensando... O que eu fiz para mudar o mundo hoje? Eu também quero ir viver, mesmo que na antítese, a vontade de realizar meus sonhos. Miguel Gonçalves Mendes tem mesmo razão: "Saramago era altamente inspirador para todos nós. Ele ia até o limite." 

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OSERVAÇÃO: 

- Luiz Schwarcz anunciou uma homenagem a Saramago, que será realizada no dia 21 de setembro, de 2010, no Sesc Vila Mariana, em São Paulo. Será uma exposição de uma fotobiografia do autor, chamada A consciência dos sonhos. Publicarei maiores informações quando sair, mas desde já, sintam-se todos convidados pelo próprio editor, que ficará muito feliz com o sucesso do evento.

- Para verem todas as fotos que tirei do evento, basta acessar o ÁLBUM DE FOTOS DO PICASSA

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